Um ambiente circense que acolhe uma das mais preciosas tradições portuguesas. Silêncio que se canta o fado no Chapitô. Uma mistura diferente, mas que até resulta. Um bar, que também é sala de aula, é transformado numa espécie de casa de fados.
Portugueses e estrangeiros acompanham Hélder Moutinho na “Lisboa menina e moça” e sorrio – no mínimo um contra-senso. Um copo de vinho razoável acompanha o fado, numa noite agradável das que ainda há em Lisboa.
Lembro-me de repente do fado de Coimbra, das odes às donzelas que se passeiam pela baixa, dos tributos ao Mondego que embeleza a cidade. Que diferença para este fado engraçado, que diverte os ingleses e faz rir os lisboetas. Tudo isto é triste, tudo isto é fado? Não me parece. Mas diz que na diferença é que está a cultura, e eu até me estou a divertir. Ouçamos o fado, na voz de Lisboa.
E Hélder, como se ouvisse os meus pensamentos, deixa os músicos a tocar os Verdes Anos. Volto a Coimbra, cidade de capas negras, saudades da cidade que me viu nascer. Saudades das tertúlias em que se toca o fado com a alma, em que se sofre ao ouvir…
As palmas fazem-me acordar. Estou de volta a Lisboa, desta vez ao som de “Cheira bem, cheira a Lisboa”. Toda a gente canta, guiada por Hélder, que até aos inglese ajuda entoar um la, la, la em jeito de “Lisboa tem cheiro de flor e de mar”.
Para terminar, “Estranha forma de vida”, e a nostalgia cresce. Também há dor no fado de Lisboa, também há fado no Chapitô.
Dor
Tenho uma dor
Uma dor de crescer
Uma dor de viver
Uma dor que dói
Dói-me crescer
Dói-me viver
Dói-me ser
Da maneira que sou
Tenho um arranhão
Tenho uma ferida
Tenho um golpe
Tenho uma vida
Tenho uma dor
Tenho uma dor
De não te ter
Tenho uma dor
De não saber
Tenho medo
da dor
Uma dor de crescer
Uma dor de viver
Uma dor que dói
Dói-me crescer
Dói-me viver
Dói-me ser
Da maneira que sou
Tenho um arranhão
Tenho uma ferida
Tenho um golpe
Tenho uma vida
Tenho uma dor
Tenho uma dor
De não te ter
Tenho uma dor
De não saber
Tenho medo
da dor
Adeus
Um dia cinzento
Uma nuvem que pesa
Um olhar que chora
Um adeus que começa…
O espelho reflecte
Uma imagem que não é a minha
Uma vela ilumina
Um passado de alegria
Um passado presente
Um passado que relembro
Um passado que foi
Uma noite calma
Uma lágrima gorda
Uma dor que começa
Quando a lua acorda
Um passado presente
Um passado que relembro
Um passado que foi…
Um presente que não existe.
Uma nuvem que pesa
Um olhar que chora
Um adeus que começa…
O espelho reflecte
Uma imagem que não é a minha
Uma vela ilumina
Um passado de alegria
Um passado presente
Um passado que relembro
Um passado que foi
Uma noite calma
Uma lágrima gorda
Uma dor que começa
Quando a lua acorda
Um passado presente
Um passado que relembro
Um passado que foi…
Um presente que não existe.
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