Ve linhas...

Linhas dispersas, linhas sem anexo.

Linhas que se acumulam, que se sucedem, sem uma lógica obrigatória.

Corres

Acordo.

O sol invade-me o quarto,
invade o dia.
Procuro-te...
Estás ao meu lado,
com um sono profundo.
Quero-te, toco-te.
Mas tu...

Corres, foges...
E já não estás aqui.

A luz já não é luz,
o sol já não brilha.
Procuro-te...
Onde estás?
Quero-te!
Mas tu...

Corres, foges
Já não estás aqui

Mentes-me, trais-me
Já não estás aqui

Adormeço.

A lua invade o meu sonho,
invade a noite.
Procuro-te...
Afinal estás aqui,
no meu sonho estás aqui.

Lágrima

Uma solidão presente, profunda. Estou rodeada de gente, mas ninguém me vê, ninguém me conhece. Sozinha no meio da multidão. Uma lágrima teimosa desce, molha-me a cara, encharca-me o espírito. Uma lágrima que insiste em mostrar uma felicidade fantasma, falsa, que não existe.

Cansaço

Cansaço. Quase morte.
Inactividade com dor de cabeça. Ociosidade com remorso.
Cansaço.

Cansaço lento, brutal.

Cansaço que demora, que magoa, que aborrece.
Inércia do pensamento e da vontade.

Cansaço.

Umbigo

Sobre o chão desta cidade,
correr estradas de cartão,
por onde tudo foge
para fora do alcance da minha mão
e entre sair para a rua
sem uma porta ter de abrir
e a pensar que nem sequer pedi para existir

Se quando nasce o dia
eu já me canso de escolher
se perseguir o que não passa de um sonho
ou pensar em sobreviver

se te digo que o mundo é cão
já que ninguém quer saber
se toda a culpa é do umbigo
porque é que o meu custa a perceber

são reflexos no passeio
ou luzes que a noite traz
do acender de um candeeiro
ou o silêncio que agora faz
e na ponta de um cigarro
focar toda essa condição
de acordar para a vida
ou vê-la a vir em frustração

Carlos, um cantor de rua do Porto

Ambientes

Fim de tarde. Um vento frio levanta-se. As folhas das árvores tremem, como se tivessem medo, como se este vento fosse um mau prenúncio. As pessoas encolhem-se, a pele ressente-se. Abre-se o apetite, o sítio é propício a isso. Pessoas entram e saem com pressa ou com vagar, mas sempre com um olhar guloso. Diferentes cores, texturas e sabores fazem-nos viajar. Olho para o vento e desejo que me leve para outras paragens, para outras paisagens.
- Chocolate. Não, espere. Prefiro de manga. E quero em cone, ou melhor tulipa. Tem waffles? Ah, bom. Então quero waffle.
A fila aumenta. As pessoas ficam impacientes, enquanto um casal de namorados discute que sabor escolher. A única empregada, como quem já vomita gelados, explica com pouca paciência os sabores que tem e serve abruptamente o que lá decidem pedir-lhe.
- Hoje apeteceu-me dar um valente estalo ao meu pai.
Quem o diz é quem já tinha reclamado pela demora do atendimento: um funcionário do Oceanário de Lisboa, que por algum motivo teve um dia mau e não está com a mesma disposição que os outros clientes demonstram. Pergunto-me como é que alguém que trabalhe no Oceanário chega a este estado de irritação. Fico algo curiosa com o pedido dele… Será avelã-chocolate? Alguma fruta, talvez.
- Quero uma super-bock!
Exacto. Condiz com o perfil.
Uma criança pequena lambe o copo vazio do gelado, talvez com a esperança de que, bem no fundo do copo, nasça um bocadinho mais. A avó ralha. Diz ao neto para não o fazer, diz que é falta de educação. O menino larga o copo com os olhos grandes e tristes, como quem não percebe o mal de desejar que um pouco de gelado lhe rebente no copo.
De repente, um monte de crianças a correr invade o espaço. A afluência é tanta que surge de lá de dentro outra empregada, tão simpática como a já presente.
- Despachem-se! A professora diz que é para ir embora.
Uma visita de estudo ao Oceanário que acaba na Olá. Os miúdos atropelam-se, gritam, sem perceber que se se mantivessem organizados, tudo seria mais rápido. Ouve-se um assobio. É o chamamento de partida. Tão depressa como entraram, lá saíram os miúdos.
O tempo começa a piorar. O dia escurece e o vento é mais forte. Tão forte que me faz lembrar as danças das tribos africanas quando abana as palmeiras.
As funcionárias, agora com um ar mais feliz, começam a arrumar tudo, a recolher ora sacos do lixo, ora baldes de gelado. Está na hora de fechar. As pessoas começam a sair em pequenos grupos. E o vento aperta, entra nos ossos, dói.

Casinha

Uma casinha pequena, no meio do nada, no meio da simplicidade que tem tudo.
Uma casinha pequena, com som de mar, com barulho de gaivota, com cheiro de areia.
Uma casinha de pôr-do-sol.
Um refúgio para uma velhinha simpática, de olhos grandes.
Uma casinha com sabor a bolos da Páscoa quando saem do forno.
Um aquário grande com peixinhos às cores e às riscas.
Uma casinha de praia. Uma casinha de vida.

Tens em ti um quê de parvo...

Tens em ti um quê de parvo
tens em ti um quê de original
tens em ti um quê de sol e de mar,
de lua e estrelas, de bem e de mal.

tens em ti um quê de parvo...
tens em ti um quê de louco
tens em ti um quê de mim,
um quê de ti em mim,um quê de nós.
Um medo de tudo, um medo de nada.
Caminho na direcção do abismo, um atalho para o fim do mundo. Sozinha. Distante.
O hoje já não é o hoje de ser feliz. O hoje está cansado, dorido de uma vida sem cor, sem alento, sem ti.