Ve linhas...

Linhas dispersas, linhas sem anexo.

Linhas que se acumulam, que se sucedem, sem uma lógica obrigatória.

Ambientes

Fim de tarde. Um vento frio levanta-se. As folhas das árvores tremem, como se tivessem medo, como se este vento fosse um mau prenúncio. As pessoas encolhem-se, a pele ressente-se. Abre-se o apetite, o sítio é propício a isso. Pessoas entram e saem com pressa ou com vagar, mas sempre com um olhar guloso. Diferentes cores, texturas e sabores fazem-nos viajar. Olho para o vento e desejo que me leve para outras paragens, para outras paisagens.
- Chocolate. Não, espere. Prefiro de manga. E quero em cone, ou melhor tulipa. Tem waffles? Ah, bom. Então quero waffle.
A fila aumenta. As pessoas ficam impacientes, enquanto um casal de namorados discute que sabor escolher. A única empregada, como quem já vomita gelados, explica com pouca paciência os sabores que tem e serve abruptamente o que lá decidem pedir-lhe.
- Hoje apeteceu-me dar um valente estalo ao meu pai.
Quem o diz é quem já tinha reclamado pela demora do atendimento: um funcionário do Oceanário de Lisboa, que por algum motivo teve um dia mau e não está com a mesma disposição que os outros clientes demonstram. Pergunto-me como é que alguém que trabalhe no Oceanário chega a este estado de irritação. Fico algo curiosa com o pedido dele… Será avelã-chocolate? Alguma fruta, talvez.
- Quero uma super-bock!
Exacto. Condiz com o perfil.
Uma criança pequena lambe o copo vazio do gelado, talvez com a esperança de que, bem no fundo do copo, nasça um bocadinho mais. A avó ralha. Diz ao neto para não o fazer, diz que é falta de educação. O menino larga o copo com os olhos grandes e tristes, como quem não percebe o mal de desejar que um pouco de gelado lhe rebente no copo.
De repente, um monte de crianças a correr invade o espaço. A afluência é tanta que surge de lá de dentro outra empregada, tão simpática como a já presente.
- Despachem-se! A professora diz que é para ir embora.
Uma visita de estudo ao Oceanário que acaba na Olá. Os miúdos atropelam-se, gritam, sem perceber que se se mantivessem organizados, tudo seria mais rápido. Ouve-se um assobio. É o chamamento de partida. Tão depressa como entraram, lá saíram os miúdos.
O tempo começa a piorar. O dia escurece e o vento é mais forte. Tão forte que me faz lembrar as danças das tribos africanas quando abana as palmeiras.
As funcionárias, agora com um ar mais feliz, começam a arrumar tudo, a recolher ora sacos do lixo, ora baldes de gelado. Está na hora de fechar. As pessoas começam a sair em pequenos grupos. E o vento aperta, entra nos ossos, dói.

Um comentário:

Anônimo disse...

Sim, gosto da descrição. A parte do gelado a rebentar no fundo do copo está especialmente bem conseguida ;)

Beijinhos*